CRÉDITO PARA SAFRA 2019/2020

Dedo de Prosa

Na véspera do lançamento do plano safra 2019/2020, o primeiro plano safra do novo governo, onde temos algumas sinalizações de algumas mudanças para a concessão do crédito rural no Brasil, André Nassar, presidente da ABIOVE (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), em entrevista ao jornal VALOR, que o aumento das recuperações judiciais (RJ) dos últimos anos, nesta nova safra, as tradings devem reduzir pela metade sua participação no crédito rural brasileiro.

As recuperações judiciais aumentaram muito no ano passado, chegando a 68 pedidos no ano de 2018, e em antes da metade de 2019 já são mais de 40 pedidos. Com as proteções das RJs, o tomador do crédito não nega sua dívida, porém ajusta os pagamentos das dívidas de acordo com sua capacidade de pagamento, esta programação é fundamental para manter a empresa operacional, e não levar ela a falência imediata.

Essa preocupação de não receber os recursos na data pactuada, acaba aumentando o Rating de todo o setor, com esta insegurança de recebimento, pode haver elevação de juros e redução na oferta de crédito, como já reportado pela Abiove.

Para entender melhor esse problema, vamos detalhar o Funding da soja em Mato Grosso em 2018/19. Nesta safra, as tradings participaram financiando cerca de 30% da safra. Além desta participação direta, elas normalmente estão na retaguarda das revendas, que participaram com 19% do funnding, ou seja, se somarmos os 30% das trades com os 19% das revendas, observamos que cerca de 49% do crédito rural da última safra teve origem nas tradings.

Na entrevista, André Nassar, comenta que pode reduzir em até 50% o crédito, causando impacto em quase 25% do total de funding da soja. Isso em números, estamos falando de quase 5 bilhões apenas para a soja, que vai precisar de outras forma de  financiado. Para se ter uma ideia, o setor financeiro absorveu na safra 2018/19 pouco mais de 6 bilhões, ou seja, precisaria quase dobrar sua participação para compensar essa diferença. Estes números são apenas de soja em Mato Grosso, mas podemos extrapolar esse pensamento para os demais estados produtores, principalmente os do centro-oeste e Matopiba.

De forma mais ampla, além deste problema, observamos uma expectativa de menor volume de recursos do setor financeiro, o que pode complicar ainda mais o cenário. Além disso, o produtor rural, de um modo geral, vem se descapitalizando nas últimas safras, o que pode reduzir sua participação de capital próprio no custeio, que na safra 2018/19 foi de 20%.

Perceba que o cenário e todas as expectativas geram muita apreensão em todo o setor, que deve ser observado de perto, pois boas oportunidades devem surgir, porém nunca devemos esquecer que os riscos também estão presentes, e o futuro da próxima safra segue incerto e merece atenção de todos os players deste setor.

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